segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

VALE A PENA DAR UMA OLHADA

A bússola de 2015
05 Janeiro 2015, 12:49 por Ulisses Pereira | ulisses.pereira@difbroker.com

Numa altura em que a economia dava sinais de recuperação a queda de um dos maiores bancos foi uma machadada que fez a bolsa sangrar.
No início de cada ano, somos tentados a pensar nos acontecimentos económicos, sociais e políticos que condicionarão os mercados nos próximos meses. Mas, na maior parte das vezes, são outros acontecimentos que marcam o ano nos mercados e, aqueles que previmos, acabam por ter pouco impacto.

O ano de 2014 é um bom exemplo disso. No início do ano, a generalidade dos analistas e investidores em Portugal acreditava que a continuação das subidas na bolsa portuguesa estaria dependente da capacidade da economia portuguesa crescer, do desemprego diminuir, da manutenção da tendência de quedas do juro da dívida pública e da capacidade de Portugal conseguir uma "saída limpa" do programa de ajustamento, algo que - no início do ano - parecia apenas uma miragem.

Todos esses grandes desafios para a economia portuguesa em 2014 foram bem-sucedidos (embora o crescimento económico tenha sido pequeno) e, no entanto, o comportamento da Bolsa portuguesa foi péssimo. Depois de um grande primeiro trimestre, o mercado accionista nacional começou a recuar no segundo trimestre e, no segundo semestre, afundou-se vertiginosamente, ao ritmo que o escândalo BES ia rebentando.

Numa altura em que a economia portuguesa dava francos sinais de recuperação e que ia recuperando a credibilidade dos investidores internacionais, a queda de um dos maiores bancos portugueses foi uma machadada que fez a bolsa portuguesa sangrar. Além do impacto que a falência (podemos chamar as coisas pelo verdadeiro nome?) de um banco tem, todas as ramificações que o Grupo Espírito Santo tinha a vários sectores da economia portuguesa agravou a desconfiança e o receio dos investidores. O caso da PT é um bom exemplo disso, uma das acções mais massacradas em 2014, perdendo mais de 70% depois de ter visto voarem 900 milhões de euros da aplicação na Rioforte. Nestas alturas de choque, os investidores saem primeiro e fazem as perguntas depois.

Não deixa de ser curioso que, há um ano atrás, uma das perguntas que mais me leitores me colocavam tinha a ver com a possibilidade da bolsa portuguesa sofrer com a correcção que os principais mercados accionistas internacionais pudessem vir a ter. A ideia da maioria desses leitores era que as bolsas internacionais estavam a viver um "Bull Market" há muitos anos e que teriam que corrigir, podendo tal ser fatal para o nosso mercado. E, afinal, o que é que assistimos? À queda abrupta da nossa Bolsa, enquanto as principais praças mundiais mantinham intactos os seus "Bull Markets". Nos Estados Unidos, os touros já levam quase 6 anos de domínio e o S&P e Dow Jones bateram máximos históricos! Aquilo que os investidores portugueses mais temiam não se verificou e, ainda assim, a bolsa portuguesa viveu um ano negro.

Por isso, apesar de ser um exercício teórico bem interessante, não creio que seja decisivo para o sucesso dos investidores imaginar quais os temas que influenciarão a Bolsa portuguesa em 2015. É evidente que não podemos negar a influência que terá na bolsa portuguesa alguns temas como as eleições portuguesas, a crise do petróleo ou a forma como o BCE intervirá na política monetária. (Omiti a situação na Grécia ou os juros da dívida pública portuguesa pois, como defendo há algum tempo, os mercados deixaram de ser influenciados decisivamente por esses factores). Mas, tal como aconteceu em 2014, todos esses temas podem remar num sentido e, ainda assim, a bolsa portuguesa tomar outro rumo.

Eu mantenho-me fiel aos meus gráficos que vão guiando o meu estado de espírito sobre o mercado português. Estive "bullish" desde o Verão de 2012 e, quando em Julho deste ano, o PSI-20 quebrou a decisiva zona de suporte entre os 6.100 e os 6.300 pontos, abandonei o clã dos touros e juntei-me aos ursos.

Para alguns, os analistas técnicos são uns traidores que, de um momento para o outro, trocam touros por ursos. Eu prefiro olhar para eles como camaleões que se adaptam ao ritmo e cor do mercado. Acredito que, para muitos, faz confusão que no final de 2013 estivesse tão "bullish" e, passado uns meses, me tivesse mudado para o lado dos ursos mas - como seguidor de tendências - essa flexibilidade faz parte do percurso normal de um analista técnico. E é por isso que, sempre que publico uma análise, digo o que me fará mudar de posição.

O que me fará voltar de novo a ficar optimista em relação à bolsa portuguesa? O primeiro sinal de curto prazo seria a ruptura da zona de resistência entre os 5.200 e os 5.350 pontos do PSI-20 mas a fronteira entre o "Bear" e o "Bull Market" mantém-se na zona entre os 6.100 e os 6.300 pontos. Naturalmente que, se a bolsa portuguesa continuar a sua tendência descendente, posso ir descendo esse valor de referência, da mesma forma que durante os dois anos que durou o último ciclo de subidas, fui subindo essa fronteira. Mas, até que essa zona seja quebrada, o poder do "Bear Market" deve ser respeitado.

Lamento se esperavam um artigo cheio de previsões fantásticas, ao bom estilo dos videntes. Fica sempre mais espectacular anunciar que 2015 nos vai trazer novidades incríveis ou que será o ano de ouro ou tragédia da bolsa portuguesa. Mas, quanto mais tempo passo nos mercados, menos bolas de cristal trago comigo e mais bússolas creio serem necessárias para se navegar à vista. Para já, em Portugal, a bola está do lado dos ursos. Mas continuarei, neste mesmo espaço, a fazer o reconhecimento da fauna. Perdoem-me, do mercado.

Que 2015 vos sorria.



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